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Programática

Tráfego inválido: o que derruba a conta de um publisher

Site aprovado, tags no ar, primeiro relatório com número em vez de zero. É aí que a maioria das contas começa a correr risco, e quase nunca por má-fé.

Leandro Bruzaferro6 min de leitura

Existe um momento na vida de todo site de conteúdo em que ele deixa de ser hobby. A aprovação sai, as tags entram, o primeiro relatório mostra número em vez de zero. É exatamente nesse ponto que a maioria das contas começa a correr risco, porque é nesse ponto que aparece a pressa.

Tráfego inválido é o nome que a indústria dá para qualquer clique ou impressão que não veio de uma pessoa real interessada no anúncio. O próprio Google define assim: tráfego que infla artificialmente o custo do anunciante ou o ganho do publisher. Repare no que a definição não diz. Ela não fala em intenção. Fraude deliberada entra, mas clique acidental entra junto.

É essa parte que pega gente honesta. Ninguém precisa querer fraudar para ser desligado.

Por que o mercado inteiro leva isso tão a sério

Do outro lado da tag existe um anunciante que pagou para falar com uma pessoa. Quando a impressão foi de um robô, ele pagou por nada, e a conta desse prejuízo não fica com o robô: fica com a plataforma que vendeu o espaço. Por isso a filtragem é agressiva e o benefício da dúvida é sempre do anunciante.

É desconfortável para quem publica e é coerente. Uma rede que deixasse tráfego inválido passar para agradar publisher perderia o anunciante, e sem anunciante não sobra receita para dividir com ninguém.

Os dois tipos que a indústria separa

O Media Rating Council, órgão que audita medição de mídia nos Estados Unidos e cujas definições viraram referência de mercado, divide o problema em dois nas suas diretrizes de detecção e filtragem.

  • GIVT, o tráfego inválido geral. É o que dá para pegar com lista e checagem de rotina: robôs conhecidos, crawlers de busca, cabeçalho de user-agent que não é de navegador, pré-carregamento de página. Não há nada de malicioso na maior parte disso. É só tráfego que não é gente.
  • SIVT, o tráfego inválido sofisticado. É o que só aparece com análise avançada, cruzamento de sinais e intervenção humana: dispositivo sequestrado, tag ou criativo apropriados, adware, fazenda de cliques que imita comportamento real.

A distinção importa por um motivo bem prático. GIVT costuma ser filtrado antes de virar receita, e você nem chega a ver. SIVT costuma passar primeiro e ser cobrado depois, na forma de dedução no relatório ou de conta encerrada. O prejuízo mora quase todo no segundo.

As cinco formas mais comuns em site de conteúdo

A documentação do AdSense lista os casos clássicos, e na operação eles se repetem sempre nos mesmos cinco formatos.

  1. 01Clicar nos próprios anúncios. Parece óbvio demais para acontecer e acontece toda semana, quase sempre sem intenção: o dono do site testando se o anúncio abre.
  2. 02Pedir clique. Qualquer texto do tipo “apoie o site clicando nos anúncios” derruba a conta. Vale para post, newsletter, grupo de WhatsApp e vídeo.
  3. 03Comprar tráfego de fonte que não se explica. Painel de visitas, encurtador pago, rede de troca. É barato, é imediato e é a forma mais rápida de encerrar uma conta.
  4. 04Desenhar layout que induz clique acidental. Anúncio colado no botão, banner que entra no meio do gesto de rolagem, unidade fixa exatamente onde o polegar descansa. Aqui não existe má-fé nenhuma, só desenho ruim, e o efeito na conta é o mesmo.
  5. 05Deixar bot passar. Site sem nenhuma camada de filtragem recebe crawler o dia inteiro, e parte disso é contabilizada como impressão.

Três dos cinco itens acima não envolvem má intenção nenhuma. É por isso que “eu não fiz nada de errado” não funciona como defesa: o sistema mede o tráfego, não a sua intenção.

Como isso é detectado

O Google descreve o processo numa página específica sobre o assunto e mantém um centro de recursos inteiro sobre qualidade de tráfego. São três camadas trabalhando juntas.

  • Filtros automáticos, que descartam em tempo real o que bate com padrão já conhecido.
  • Análise de padrão, que compara o comportamento da sua conta com o esperado e sinaliza o que destoa.
  • Revisão humana, feita por uma equipe dedicada, para os casos que a máquina marcou mas não fecha sozinha.

Vale sublinhar a terceira camada. A decisão final sobre uma conta suspeita passa por gente, e é por isso que histórico e coerência contam: uma operação com padrão estável há meses e um pico isolado tem uma conversa diferente de uma que subiu do nada na semana passada.

O que dá para fazer antes

Quase tudo que protege uma conta é feito antes de a primeira tag entrar no ar, e nada disso é caro. É só chato o suficiente para a maioria pular.

  1. 01Auditar a origem do tráfego. Saber de onde vem cada visita e recusar qualquer fonte que não consiga explicar a própria origem.
  2. 02Posicionar anúncio pensando em onde o dedo passa, e não em onde o clique é provável. A pergunta certa é “alguém clicaria aqui sem querer?”, e ela precisa ser respondida no celular, não no monitor.
  3. 03Ler a política do programa antes de implementar, e não depois da notificação.
  4. 04Instalar filtragem de bot no servidor ou na CDN, para o lixo não chegar nem a contar como impressão.
  5. 05Monitorar CTR por página e por origem, não só no total. Anomalia aparece primeiro num segmento e some na média.

Na Foxy essa verificação é uma etapa bloqueante do processo, e não um item de checklist que alguém marca no fim. Nenhum site da operação recebe tag antes de passar por ela, porque o custo de arrumar depois é desproporcional: reverter uma dedução é difícil, e recuperar uma conta encerrada é bem mais difícil. Dá para ver como esse gate se encaixa no resto da esteira.

E quando já aconteceu

Se a dedução ou o aviso já chegou, a ordem das coisas importa. Primeiro parar a fonte: se foi tráfego comprado, cortar; se foi layout, mudar o layout; se foi bot, subir a filtragem. Depois documentar o que mudou, com data. Só então recorrer.

Recorrer antes de corrigir é o erro mais comum e queima a única chance de ser levado a sério. O formulário de recurso não pede desculpa, pede evidência de que a causa foi removida.

E se a conta foi encerrada, abrir outra no mesmo CPF ou no mesmo endereço não resolve e piora o histórico. Esse caminho não existe, por mais que a internet insista que existe.

O resumo honesto

Tráfego inválido não é, na maioria dos casos, um problema de fraude. É um problema de processo. As contas que caem raramente pertencem a gente mal-intencionada: pertencem a gente com pressa, que ligou o anúncio antes de saber de onde vinha a visita.

A boa notícia é que isso é inteiramente controlável, e o controle sai barato quando é feito antes. Depois, não sai.

Fontes

Todas abertas e conferidas antes de entrarem no texto. Se alguma sair do ar, avise pelo contato e a gente corrige.

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